este curso é dedicado à memória de Claudia Castro, 
que participou da concepção do projeto tempos atrás

Uma série estudos sobre as obras de Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992), que conjugam de modo original e provocativo domínios variados do saber: das matemáticas à economia política, da antropologia à psicanálise, da política ao direito, das artes plásticas e cinema à literatura. Essa é uma das razões da composição plural do corpo docente e da diversidade das abordagens propostas nas ementas. Pretendemos ainda reunir outros pesquisadores e leitores de Deleuze e Guattari para encontros que ocorrerão entre as aulas, sob a forma de mesas de debate sobre temas específicos.
Uma das noções norteadoras do pensamento de Deleuze e Guattari é a de que uma filosofia política que se preze, hoje, deve estar centrada na análise do capitalismo e de seus desenvolvimentos. O interesse por Marx, por parte dos autores de O anti-Édipo e Mil platôs, é a análise do capitalismo como sistema imanente que se reproduz sempre em escala crescente, incorporando inclusive as forças produtivas que se constituem, originalmente, à sua margem e, no mais das vezes, em resistência a ele. Se essa análise, contudo, desloca a si mesma em relação ao debate marxista, é porque soube criar novos conceitos para pensar a singularidade da experiência política da Europa pós-68. Entre eles, o conceito delinha de fuga (ao invés de contradição) para explicitar os movimentos constitutivos de cada sociedade para além dos regimes jurídicos e institucionais que visam a uniformização e o regramento da vida social. Além disso, o conceito de classe dá lugar ao de minoria, que não se define pelo número, pois ela pode ser mais numerosa que uma maioria. Esta se apresenta como um modelo que procura se impor como norma, enquanto a minoria é antes um processo que uma adequação ao mesmo (modelo): a minoria é um devir-outro, uma ruptura com o mesmo e uma abertura para o novo como processo de criação. 
O debate político que se propõe se define a partir de uma filosofia prática e passa pela produção de sentido, antes que pela decifração do real. Decifrar o real é encontrar o sentido como dado a priori que já comporta em si um esquema de valores estabelecidos que justifica o real tal como ele é, levando a esquivar-se diante da miséria, resignar-se diante do intolerável. O que se propõe é um pensamento que, na apreensão mesma do intolerável, responda enfaticamente através da produção de novos sentidos e valores, numa prática que renuncie a toda política de compromisso com os valores vigentes que resultam na imensa fabricação da miséria humana, material e espiritual. 
Em suma, a filosofia de Deleuze e Guattari se apresenta como aliada daqueles que se somam no esforço de pensar, não apenas pela força de seus conceitos, mas também por enfatizar que o pensamento se define enquanto atividade criadora, que não pode ser descolada do mundo que se põe a pensar sem correr o risco de deslizar para ideias gerais pré-concebidas e inócuas. Assim, o pensamento se afirma enquanto prática imanente decorrente das forças da experiência vivida em sua singularidade – pois não há filosofia que não seja filosofia política [Sandro Kobol Fornazari]